Em minha rotina como psicóloga clínica e escolar as maiores dúvidas e dificuldade que percebo, vinda dos adultos está em como e quando colocar limites para as crianças. Costumo responder que desde sempre é necessário dizer um “não” para o bebê que morde o seio da mãe, explicar para ele o motivo deste não.

O senso comum parte do princípio de que o bebê ou a criança muito pequena não compreende aquilo que é dito a ela e isto é um fato. Compreender o teor deste “não” ou a consequência que vem como a dor provocada pela mordida na mãe, de fato está fora de cogitação, no momento. No entanto, pelo tom de voz, entonação, expressão facial o bebezinho será capaz de ir assimilando que aquela situação não foi bem aceita.

Apenas com a evolução cognitiva, por volta de 3 anos de idade podemos considerar que a ação da criança passa pelo pensamento e, deste modo é intencional. Isto não quer dizer, no entanto, que nesta fase, magicamente, a criança vai ser capaz de perceber que foi responsável ao jogar algo no chão e quebrar este objeto ou machucar um colega com um empurrão.

Se a criança nunca tiver ouvido “nãos” e explicações para eles, nunca tiver sido frustrada, a tendência é que ela tenha dificuldade para aceitar esta condição de responsável por seus comportamentos e atitudes. Isto nada tem a ver com “má índole” pois a criança encontra-se formando seus padrões de comportamento, valores e personalidade.

Para que esta formação se dê de maneira efetiva a criança precisa, por meio da ajuda do adulto, ir aceitando e compreendendo os limites que separam a criança de outra criança, da vontade do outro que não é a mesma que a sua e do mundo.

A escola

O papel da escola visa à formação das crianças e à integração delas no meio social, compartilhando experiências que permitam a elas entender a necessidade de respeitar regras e aos outros indivíduos.

Boa parte desses valores e “nãos” são ditos em casa, antes mesmo da criança aprender a falar o seu “não” para os pais como aponta a psicoterapeuta e escritora francesa Isabelle Filliozat em seu livro “Já tentei de tudo” (2011).

Engana-se quem pensa que um bebê não tem limites. A rotina, por si só, já é o primeiro contato que seu filho tem com as regras da casa. Mas a maneira como elas são impostas varia conforme a maturidade da criança.

No caso das escolas de educação infantil e berçários os limites também estarão presentes e não precisamos ir muito longe para percebê-los pois a própria rotina alimentar e de higiene, além das atividades e interação ajudam à dar esta noção.

A criança em casa ou na escola vai dividir tempo e atenção de seus pais com outros ou outra atividade e é importante que ela possa perceber isso, ir vivenciando isso, sempre com o adulto passando-lhe a segurança de que está ali e ela não está desamparada mas apenas experimentando ser capaz de esperar. A amamentação, o desmame, o fim da licença maternidade da mãe já são também uma prévia destas vivências de espera.

Para o psicanalista e pediatra inglês Donald Winnicot, até iniciar este processo o bebê acredita que ele e mãe são uma unidade, até porque sempre que há sua vontade de comer, sede, sono ele é atendido, até mesmo o seu olhar é extensão do olhar da mãe.

Como já vimos, à cada fase do desenvolvimento cognitivo e emocional, as demandas envolvidas em relação aos limites são diferentes. Um ponto de extrema importância ao se impor limites é saber que o que fazemos para a criança é o mais acertado pois precisamos não titubear ou demonstrar insegurança para os pequenos nestes momentos.

De acordo com Içami Tiba “Quem ama educa” e, desta maneira, dar limites nada mais é do que educar, regrar e dar organização às atitudes e comportamentos da criança. Dar limites é uma legítima demonstração de amor, afinal, se as primeiras relações da criança (pais, avós, escola) não puderem mostrar a ele que o mundo não é regido por suas vontades na hora e do jeito que as deseja, quem os fará?

Testando os limites dos pais

Não existe uma fórmula, pronta para ser usada quando se pensa em educar e dar limites, deve-se avaliar cada caso e cada criança, de acordo com sua idade. No caso das “birras”, por exemplo, muito comuns entre 2 e 3 anos, as crianças ainda não têm maturidade suficiente para lidar com uma determinada frustração e acabam explodindo. Essa explosão vem em forma de choro incontrolável, gritos e aquela movimentação física intensa difícil de conter.

Em algumas situações também é importante notar as crianças testando o limite dos pais para descobrir até onde podem chegar. Outras vezes, a birra é apenas um pedido de ajuda inconsciente para lidar com um sentimento novo que é a frustração.

Vale notar que as “birras” aparecem antes dos berros e do choro e ao primeiro sinal dela, é hora de negociar, levando em conta a idade da criança.

Para as crianças maiores, entre 4 e 5 anos é interessante se utilizar de sua pró atividade, ou seja, que professores as usem como ajudantes do dia pois para elas isso pode ser uma grande conquista e que as enche de orgulho para demonstrar bons comportamentos. Outra possibilidade é a utilização dos combinados e uma vez que a criança combina algo com o adulto sua palavra ganha valor e ela sente-se parte de algo a ser cumprido e não imposto pelo adulto.

Coerência e constância são palavras chave quando falamos sobre limites e educação, isso porque a criança vai repetir e resistir aos “nãos” que ouvir e às frustrações, no entanto, as repetidas vezes percebendo a mesma postura de pais, mães, avós e professores dão a ela um padrão de comportamentos e atitudes aceitáveis para cada situação. Desta forma a parceria escola-família torna-se também de suma importância, sendo papel dos educadores orientar os pais e informá-los sobre o comportamento dos filhos na escola.

Atitude dos educadores em relação à falta de limites da criança:

SEMPRE: Tudo deve ser dito na linguagem que a criança e conversar com a criança baixando até a altura dela, olhando em seus olhos. Mantenha uma rotina para a criança, isso dá segurança e transmite afeto. Não diga não o tempo todo e para tudo, valorize-o, caso contrário a criança também vai dizer “não” para tudo.

NUNCA: Apontar o dedo na direção de seu rosto, apertar, gritar, bater, falar de uma altura diferente da dela ou sem olhar, isolar a criança do convívio, prendê-la, tratá-la como ruim ou indiferente. Nada disso ensina o que precisamos ensinar!!!

Como dar limites para as crianças de acordo com a idade e em sala de aula:

Até os 6 meses: O bebê não tem noção de que existem outras coisas além dele, os horários de banhos e mamadas são suas primeiras regras. Percebendo que o não vai magoar a criança, mude de ambiente e proponha uma brincadeira (músicas, sons e cores são sempre bem vindos e ajuda à distrair).

Até os 2 anos: A criança começa a perceber o mundo e as pessoas ao seu redor como diferentes dela, mas ainda não sabe dividir – é a fase do “é meu!”. Nesse período em que o “não”, principalmente relacionado à segurança, passa a fazer parte mais ativamente da vida dele. Nessa idade a criança quase não entende essa palavrinha e por isso vai rir e achar graça quando você a disser. Se for preciso, retire-a de perto do perigo. É a fase em que está testando suas habilidades motoras e por isso tende a jogar objetos, pisar neles, puxar cabelos, bater. Elas não têm maturidade suficiente para perceber que fizeram uma coisa errada, muito menos que estão pagando por isso. Mas, por exemplo, se ela joga um brinquedo no chão ou em alguém e você tira o brinquedo, já pode ser um castigo para ela. Cantinho do pensamento não tem função pois seus atos ainda não são controlados por sua intenção, tal como o “controlar/acalmar o corpinho”, a não ser que sejam mediados por um adulto que vai colocá-la sentada em seu colo, mostrar que ao invés de usar o bracinho para bater no colega pode utilizá-lo para fazer carinho nele.

Dos 3 aos 5 anos: É fase em que as birras são intensas e por isso se deve ter o cuidado de não entrar nos embates com as crianças. Prefira dar comandos simples e curtos.  Prefira usar “ou” ao invés de “se” quando quiser pedir que ela faça algo pois a segunda opção soa como ameaça. Se a criança estiver em um lugar perigoso, retire-a de lá imediatamente! Mantenha a calma e não esqueça que você serve de modelo para seu aluno e quanto mais calmo ficar, mais rápido a situação vai se resolver. Não grite pois isso diz mais do seu descontrole do que da situação em si e a criança percebe que foi capaz de te desestabilizar. Desvie o foco da criança. Como ela está nervosa, evite conversar muito na hora. Melhor falar menos e agir mais. Até os 5 anos, a criança não consegue manter a concentração nas palavras por mais de 30 segundos. Quando perceber que ela se acalmou, dê um abraço bem gostoso para mostrar a ela que está tudo bem!

Silvia Araujo Cupolillo
silcupolillo@gmail.com
Psicóloga Clínica e Educacional

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